Entrevistas

Publicado em 26/06/2017

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Toquinho fala de sua carreira e relembra parcerias

Com mais de 50 anos de carreira, Toquinho, o parceiro mais longevo de Vinícius, lembra das boas amizades e das canções consagradas. Entre elas, Aquarela, um clássico que ajuda na constante renovação de seu público.

 

São mais de cinquenta anos transformando poesia em música, traduzindo sentimentos em canções e transbordando emoção no violão. Cantando e compondo, Antonio Cecci Filho, o violonista Toquinho, coleciona clássicos, amigos e fãs. Aos 70 anos, o autor de “Aquarela do Brasil” continua conquistando novos públicos todos os dias, com suas canções cheias de lirismo. Com músicas para adultos e crianças, a plateia de Toquinho sempre está renovada. E esta é uma das principais inspirações para este ícone da Bossa Nova seguir cantando.

Toquinho surgiu no cenário da música brasileira em um período de grande efervescência cultural. Esteve ao lado de Elis Regina, Zimbo Trio, Marcos Valle, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Com os dois últimos, aliás, fez grandes parcerias, levando suas canções para fora do país. Só com o eterno Poetinha, a parceria foi longa e premiada: 11 anos e um disco de ouro na Itália, com mais de 100 mil cópias vendidas do álbum que lançou Aquarela para o mundo.

O músico conversou com a reportagem da Terraço e falou sobre tudo: dos 51 anos de carreira, do momento político atual, da amizade com Chico Buarque e da eterna saudade de Vinícius.

Depois de tanto tempo nos palcos, qual é a sensação de ver uma mescla de gerações nos shows, cantando as suas composições?

A renovação de meu público comprova a diversidade dos temas musicais que atingem as emoções das pessoas ao longo do tempo. Outro fator dessa renovação são as músicas infantis. As crianças conhecem minhas canções desde cedo e aprendem a acompanhar minha trajetória. Garotos dos anos 1980 hoje são pais de filhos que já cantam minhas canções, como eles cantavam quando crianças. E as gerações vão se cruzando e perpetuando minha obra.

 

Dentro do seu vasto repertório, que todo mundo canta, há obras consagradas e que o público sempre quer ouvir. Como manter a mesma paixão de décadas atrás cantando, por exemplo, Aquarela, em todos os shows?

Os clássicos se perpetuam naturalmente porque são obras especiais, que despontam por sua originalidade. Parece que essas canções ficam cicatrizadas no imaginário das pessoas. Por isso são constantemente requisitadas nos shows. E o artista sente essa vibração emocional do público, que se transfere a ele com o vigor de uma primeira apresentação. Não há como escapar dessa emoção que liga a obra ao público através do intérprete.

O público mudou ao longo de tantos anos. Não é difícil observar, por exemplo, que muita gente deixa de assistir ao show para filmar ou postar em redes sociais o ‘momento’.  O que você tem observado, do palco? Algo te incomoda neste novo comportamento da plateia?

As emoções são as mesmas, provocam reações humanas. Apenas vejo que a tecnologia facilitou a perpetuação delas. Pode-se levar a reprise para casa e curti-la ao dispor do tempo nas horas apropriadas. No fundo, o artista vai junto e continua perto de quem o admira. Nada disso me importa, só me faz mais próximo das pessoas.

 

Além do público adulto, você conquistou o infantil também. Qual deles você considera mais “crítico”? E qual a diferença de compor para esses públicos?

A criança prima pela espontaneidade. Revelam naturalmente suas emoções. Se gostam, não esquecem. Se não gostam, descartam. Eu me divirto fazendo músicas infantis e cantá-las para as crianças. Não há shows específicos para crianças ou para adultos. Meu repertório é muito vasto e comporta mesclar canções que podem satisfazer todo tipo de público. Para os adultos, haverá sempre uma criança escondida em sua memória pronta a ser despertada. Para as crianças dos dias de hoje, a sofisticação do entendimento das coisas permite que se mostre a elas com naturalidade todo tipo de informação musical, quando bem dosada.

 

Alguma lembrança especial com a nossa região?

Já passei por essas cidades algumas vezes nesses 50 anos de carreira. Espero ter deixado meu carinho pessoal e musical, a ponto de despertar ainda o interesse por minhas canções, extravasado na grandiosidade de Itu, na pujança de Sorocaba e na tranquilidade de Porto Feliz.

 

Mudando um pouco de assunto, como você vê o atual momento do Brasil, tanto econômico quanto político?

Apesar de tudo, é um momento profícuo de revelações fundamentais para a democracia. Conhecemos o joio, que é o mais importante, mesmo que o trigo seja raro.

 

No cenário mundial, a tensão também é grande, com algumas polarizações entre Estados Unidos, Coreia, sem contar na guerra na Síria. Como o mundo voltou a ser tão intolerante e preconceituoso?

Não há como fugir das vaidades e das ganâncias incitadas pelo poder. Mas nas horas cruciais, das decisões fundamentais, a prudência prevalece e o mundo segue sua trajetória de histórias que se repetem e se diluem na renovação dos povos.

 

Vamos falar de Vinícius de Moraes? Qual é o tamanho da falta que ele te faz?

Aprendi muito com Vinicius, nossa parceria se solidificou através de uma profunda  amizade.  Por  isso,  do  que mais  sinto  falta  é  do amigo das horas mais livres, dos papos que entravam pelas madrugadas, da convivência com a picardia e com o humor inteligente e sempre carinhoso de Vinicius de Moraes.

 

E Chico Buarque?

Somos amigos desde a adolescência. E essa amizade se fortaleceu ainda mais na época em que estivemos juntos na Itália durante o ano de 1969 vivendo todo tipo de desafios e conquistas. E essa amizade perdura até hoje, apesar das alternadas distâncias físicas. Chico é aquele amigo que se pode contar em todas as ocasiões.



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