Samanta Holtz

Publicado em 04/04/2016

Quem sou eu, afinal?

terraco_-_SAMANTAComeço esse texto com o título de um maravilhoso romance escrito pelo autor brasileiro Ricardo Valverde: “Quem sou eu, afinal?”. O livro narra a trajetória de um personagem diagnosticado com Mal de Alzheimer e descreve como ele sente o avançar da doença e o impacto nas pessoas que o rodeiam.

Certa vez, Ricardo me contou sobre sua experiência pessoal com o Alzheimer, ao acompanhar um familiar que se tratou da doença durante anos. Ao ler o romance, eu notei essa experiência na forma detalhada como ele descrevia cenas, sintomas e acontecimentos, e me dei conta de como deve ser difícil, para alguém, enfrentar uma doença que, aos poucos, o impede de reconhecer o próprio reflexo no espelho. Perdem-se as memórias, as lembranças e a própria identidade.

Hoje, ao escrever esse texto, eu me pergunto: será que o Alzheimer é a única ameaça verdadeira à preservação da nossa identidade? Será que, mesmo sem a doença, nós também não corremos o risco de perder contato com quem somos de verdade?

Pense na seguinte situação: quando éramos bebês, nossos pais tampavam todas as tomadas da casa, pois tínhamos a teimosa mania de enfiar os dedos naqueles tentadores buraquinhos na parede. Quem nunca? Isso se repetia até o dia em que conseguíamos vencer o quase infalível sistema de segurança estabelecido pelos adultos e matávamos a vontade de colocar o dedo lá… sem imaginar o choque dolorido que nos faria chorar de susto e dor! E hoje em dia? Você ainda precisa desses protetores de tomada? Ou já sabe, por conta própria (e dos choques que tomou ao longo da vida), que colocar o dedo lá dentro é uma péssima ideia?

Esse é um exemplo simples para entendermos que, com as experiências da vida (especialmente as dolorosas), criamos regras que nos condicionam a fazer ou não certas coisas. Muitas delas são boas, pois dizem respeito à nossa sobrevivência e autopreservação — por exemplo, decidir não colocar mais o dedo na tomada. É assim que, à medida que amadurecemos, vamos moldando nossas atitudes, palavras, decisões e até mesmo o caráter. Não há mal nisso, é o ciclo natural da vida. No entanto, assim como regras positivas são criadas nesse constante processo, outras não tão boas podem acontecer também.

Decepções, fracassos, erros, momentos em que ficamos expostos e quase morremos de vergonha… tudo isso também deixa marcas, tão ou mais profundas quanto o choque que levamos na tomada, quando bebês. E, assim como a lição aprendida no choque ficou guardada lá dentro, acabamos armazenando essas experiências negativas também, porém nem sempre de forma saudável. É assim que alguém que foi demitido do emprego não acredita mais na própria capacidade. É assim que alguém que se deu mal em um relacionamento não quer mais se envolver com ninguém. É assim que uma pessoa gentil perde a doçura e passa a ser grosseira para se proteger. É assim, e de tantos outros jeitos, que o “verdadeiro eu” passa a ser sufocado por camadas e camadas de escudos, máscaras, traumas, medos… muitas delas que só nos fazem mal e nos afastam de quem somos de verdade.

Que camadas você carrega dentro de si? Elas são mesmo necessárias? Nessas últimas linhas, eu o convido a se colocar em frente ao espelho e, olhando no fundo dos seus olhos, perguntar a si mesmo: “Quem sou eu, afinal?”. Se houver qualquer bloqueio no caminho até essa resposta, talvez seja um bom momento para deixá-lo ir embora… antes que ele sufoque sua verdadeira identidade a tal ponto que você não seja mais capaz de reconhecê-la, ao olhar dentro de si.

Quem é você?

Foto: Tatiana Holtz.

         Sobre Samanta

    Escritora atualmente contratada pela Editora Sextante. Autora dos romances “O Pássaro”, “Quero ser Beth Levitt” e “Renascer de um Outono”. Seu novo título será publicado em 2016.

Site oficial: www.samantaholtz.com.br

E-mail: contato@samantaholtz.com.br

 

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