Entrevistas

Publicado em 05/02/2014

Processo educacional no Brasil

“Não estamos no começo do fim, estamos no fim do começo”

O filósofo Mario Sérgio Cortela, em entrevista à Revista Fórum, traçou um histórico das políticas públicas para a educação no país. Comentando a situação do professor e contestando o modelo educacional adotado no estado de São Paulo, o acadêmico apresenta um panorama diferenciado sobre um dos temas mais discutidos na atualidade.

Segundo Mario, parafraseando Darcy Ribeiro, educação no Brasil não é uma crise, é um projeto. “Assim, deixa claro o que aconteceu no país durante décadas. O Brasil é um país que fez 509 anos de fundação, mas o Ministério da Educação foi fundado somente em 1930. Antes de 1930, não havia nenhum órgão nacional que cuidasse da educação. Aliás, a primeira universidade brasileira de fato é a de São Paulo, fundada em 1934. Para se ter uma ideia, Peru, Bolívia, Paraguai já tinham universidades no século XVI”, explica.

O acadêmico também conta que a primeira faculdade no país (USP) foi criada para dar um título ao rei Leopoldo, da Bélgica, num momento em as elites propositadamente não cuidavam da educação pública. “No período da República, a educação só entra como prioridade a partir de 1930, quando há a revolução liberal, graças a pioneiros como Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo que levaram a essa lógica. Por incrível que pareça quem vai potencializar de fato a educação como elemento de integração nacional será a ditadura militar. É ela que em 1964, ao assumir no golpe, gerencia a estrutura política e econômica até 1985, e vai dar uma certa integralidade a uma noção de educação pública com todos os desvios que carregou e que podemos mencionar. A ditadura deu ênfase à educação básica, como não havia acontecido antes. A Nova República do [José] Sarney e depois o governo FHC não deram atenção à educação básica”.

Segundo ele, o Brasil está deixando a indigência na área de educação nos últimos 15 anos. “Portanto, no governo Fernando Henrique, no governo Lula, começa a se abandonar a indigência na área educacional. Não estamos no começo do fim, estamos no fim do começo. Por isso, há um outro elemento. Os liberais, hoje chamados neoliberais, foram responsáveis pelo agravamento da crise da educação resultante do modelo econômico escolhido durante a ditadura pelas elites, sob gerenciamento dos militares”.

Na entrevista, Mário vê a educação no Brasil com otimismo. “Se olharmos hoje, que digo eu? Depois de 509 anos de história, há uma educação que começa a dar seus passos. Atingiu quase a universalização do ensino fundamental” que ainda vê a educação saindo da indigência nos últimos 15 anos, “estamos começando a sair do nono círculo de fogo do inferno. Mas chegaremos ao Paraíso porque temos condições de fazê-lo. Há forças sociais que se movimentam nessa área, a crise existe, mas temos saída”.

“Por último, muita gente diz que o Brasil vai crescer no dia em que tiver educação em larga escala. Essa equação não é tão automática, se fosse assim, não seríamos o número 66 no IDH em Educação e a décima economia do mundo. Educação é um bem, uma riqueza. O problema não é a posição em que ela está, o problema é que ela não é redistribuída. Portanto, sendo um bem não redistribuído, não adianta tê-lo em alta densidade, é preciso tê-lo em alta extensividade de absorção” completa.

 



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