Entrevistas

Publicado em 25/05/2017

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O SEGREDO É MANTER O EQUILÍBRIO

Como assessor de uma empresa de limpeza pública no Nordeste, o jornalista Daniel Navarro Sonim viu de perto a batalha que as grandes cidades travam dia após dia para manterem-se limpas.  De volta a São Paulo, Daniel trouxe na bagagem uma nova consciência ambiental. Foi aí que surgiu o  blog ‘Menos Lixo Por Favor’, que trata de vida saudável nas mais variadas formas, incluindo experimentos para a substituição de produtos que fazem parte do nosso cotidiano, como um xampu ou desodorante. O jornalista, que também é escritor (é autor do livro “O Capa Branca”, que traz as memórias de um ex-funcionário que se tornou paciente do Hospital Juquery), é tradutor, palestrante e praticante assíduo de corridas. Ao contrário do que se pode pensar à primeira vista, ele não é vegetariano, nem tão pouco faz a linha ecochato. Daniel apenas pratica o que para ele é fundamental: o equilíbrio entre a vida e o consumo em nome do bem-estar.

 

Por que o tema ‘lixo’ lhe interessa tanto?

Esse tema passou a fazer parte da minha vida quando trabalhei como assessor de imprensa da empresa responsável pela limpeza, coleta e destinação final de lixo em Fortaleza (CE). De 2008 a 2010 vi de perto o trabalho dos garis, coletores e varredores, visitei várias vezes o aterro sanitário e acompanhei as dificuldades para se manter a cidade limpa. Então percebi que poderia haver alternativas para lidarmos com o lixo que produzimos. Não basta apenas consumir e descartar. É possível levar uma vida sem desperdício e sem a necessidade de agredirmos o planeta em que vivemos.

 

Em qual momento destas descobertas pessoais surgiu o ‘Menos Lixo Por Favor’?

Comecei a pesquisar por alternativas para produzir menos lixo e a aplicá-las no meu dia a dia. Há muito conteúdo na internet de pessoas aqui do Brasil e do exterior. Por essa razão, achei que também poderia contribuir disseminando minhas ideias no blog Menos Lixo, Por Favor. O primeiro texto foi publicado em junho de 2016.

 

Como você seleciona os temas e desenvolve o conteúdo deste blog?

Meu objetivo é disponibilizar conteúdo capaz de conscientizar as pessoas de que é possível viver de forma mais sustentável. Seleciono os temas de acordo com as descobertas e alternativas que aplico no meu dia a dia. É um aprendizado constante. A quantidade de plástico das embalagens de desodorante, por exemplo, me incomodava. Então comecei a procurar por alternativas mais naturais. A quantidade de substâncias presentes na composição com potencial para fazer mal à saúde também me deixavam bastante ressabiado. Depois de pesquisar, encontrei uma receita de desodorante caseiro que leva apenas quatro ingredientes, é superfácil de fazer e reaproveito a embalagem indefinidamente.

 

Durante este processo de descobertas, você encontrou muitas dificuldades?

Sempre encontro alguns obstáculos, mas aos poucos aprendo a superá-los. Tento comprar o máximo de itens a granel, mas nem tudo está disponível. Há poucos estabelecimentos comerciais que oferecem essa opção. Levo minhas embalagens e trago para casa apenas a quantidade que preciso. No começo, parecia complicado, mas isso já se tornou absolutamente normal na minha rotina. Qualquer tipo de mudança é desconfortável no começo, mas depois nos acostumamos. Isso vale na troca do xampu líquido pela versão em barra e na substituição da esponja com material sintético pela bucha vegetal para lavar louça. Seria ótimo comprar materiais de limpeza a granel também, né?

 

Neste universo das substituições, qual  seu próximo passo?

Meu próximo passo é lavar roupa com um sabão líquido ou em pó feito em casa. Isso é bem viável, mas ainda estou em fase de testes. Já substitui o amaciante por vinagre de álcool e deu super certo. Na verdade, a maior dificuldade não está no meu processo de descobertas, porque tenho acesso à informação e moro em um bairro com boa infraestrutura. O problema é que vivemos em um país onde apenas 2% de todo o lixo é reciclado e muita gente sequer tem acesso à água limpa e saneamento básico.

 

Na sua opinião, a reciclagem é a chave para reduzir os danos ao meio ambiente?

É importante, mas não é a solução para reduzir os danos ao meio ambiente. A reciclagem é um processo industrial que requer muita energia e muita água. Mesmo em países em que a reciclagem é mais desenvolvida que no Brasil, é absolutamente inviável reciclar todo o lixo produzido. Vale ressaltar que nem tudo é reciclável. E nem tudo que é reciclável é reciclado. Os saquinhos de batata frita, por exemplo, são feitos de um plástico complicadíssimo de ser reciclado. Por isso, quando esse tipo de plástico chega às cooperativas, é descartado como lixo comum e segue para os aterros sanitários.

 

Fazer compostagem em casa também é uma saída?

Sim, por ser uma das formas mais eficientes de diminuir a quantidade de lixo orgânico que seguiria para o aterro sanitário. As minhocas da composteira comem os restos dos alimentos que consumo, como cascas de frutas e legumes, por exemplo, e os transforma em um poderoso fertilizante líquido que utilizo para regar as plantas que tenho em casa, mas que também pode ser usado em jardins ou hortas. A compostagem nada mais é do que a reciclagem do lixo orgânico. Mas vamos combinar, antes que alguém duvide, que minhocários não fedem porque as minhocas não aceitam carne, fritura, laticínios, etc. Só haveria mal cheiro se houvesse carne que, obviamente, apodrece.

 

Você acredita que é possível viver sem produzir resíduos que danifiquem a natureza?

Por enquanto me parece uma realidade utópica. É impossível vivermos sem plástico, por exemplo. Se eu preciso tomar vacina, a seringa é de plástico, claro! Mas ela deve ser descartada corretamente e seguir para a incineração. Mas no dia a dia já consegui eliminar as sacolas plásticas de compras. Uma atitude simples, que faz muita diferença, é levar sempre sacolas de pano.

 

Como você vê a relação das pessoas ao seu redor com o consumo nos dias de hoje?

Vejo que há esforços para uma mudança. Porém, no Brasil, ainda é muito complicado tentar aplicá-la. Em grandes cidades ou capitais, a rotina nos leva a consumir tudo que é prático e está à mão. Quem gasta duas horas para ir e mais duas horas para voltar do trabalho no ônibus ou no metrô lotado não vai ter tempo nem de pensar em comprar uma dúzia de laranjas para fazer suco em casa. A opção industrializada entupida de corantes, açúcar e conservantes se torna mais conveniente, além de ser vendida como ‘prática’ e ‘saudável’. Acredito que quanto mais justificativas, menos verdadeiro é o produto. Por acaso, você já viu um comercial para a laranja? Claro que não. A laranja por si só é prática e saudável, não precisa de publicidade. Se não houver uma mudança, a saúde vai gritar socorro se as pessoas só consumirem produtos industrializados.

 

 

 

O DESODORANTE FEITO EM CASA

Farmácias e supermercados oferecem inúmeras opções de desodorantes capazes de eliminar o mau cheiro das axilas. Nas prateleiras encontramos fragrâncias que lembram brisa do mar, flores do campo, pitanga, limão siciliano, entre outras. Tem também aqueles aromas mais subjetivos e curiosos, como paixão, lenha e âmbar. Dá até para viajar para outros continentes com as essências “uma tarde na Toscana” e “Savana Style”, esse último em inglês. Embora eu não me lembre de nenhuma opção em francês, esse é o idioma queridinho dos perfumes desde os tempos mais remotos. E não posso deixar de lado aquela marca do slogan “elas avançam”. Bastavam duas borrifadas nas axilas para a mulherada ensandecida surgir do nada e agarrar os homens na rua.

A lista ainda contempla as opções sem perfume e os antitranspirantes e, claro, os antitranspirantes sem perfume e com fragrâncias diversas… Ufa!!! Diferentemente dos desodorantes comuns é que, como o nome já diz, esse produto inibe ou diminui a transpiração. Algumas marcas prometem proteção por 24, 48 e até 72 horas! Sim, três dias completos. Encontrei essa opção em um supermercado na França.

Parece ótimo deixar de suar, né? Isso evita, obviamente, o suor e, consequentemente, o mau cheiro nas axilas. Mas não se engane, porque os antitranspirantes possuem em sua composição sais de alumínio e derivados. Pesquisas apontam que a absorção dessas substâncias provocariam câncer de mama e Alzheimer. E os desodorantes convencionais também contêm toxinas que podem ser perigosas. Preste atenção no rótulo e você encontrará diversos produtos químicos, como o triclosan e os parabenos, que estariam ligado a distúrbios endócrinos, são considerados alergênicos para pele, olhos e pulmões, e, se não bastasse tudo isso, assim como os sais de alumínio, são cancerígenos, de acordo com alguns estudos. Já falei sobre os parabenos em um post sobre xampu. Clique aqui para lê-lo.

Além dos riscos à saúde, nem quero pensar em quantas embalagens de plástico ou alumínio já descartei. Algumas provavelmente foram recicladas, mas a maioria deve estar, até hoje, nas profundezas de algum aterro sanitário por aí, pois estima-se que o plástico leva até 400 anos para se decompor. Confesso que já faz algum tempo que deixei de comprar desodorante convencional em farmácias e supermercados. Fui atrás de marcas com ingredientes mais naturais com menos toxinas, mas todas as opções vinham em embalagens plásticas. Antes de tomar essa decisão eu trazia para casa desodorante roll-on sem perfume. Só que eu sempre tinha que ler o rótulo com cuidado, porque o álcool na composição de algumas marcas irritava minhas axilas.

Para deixar de consumir tantas embalagens, eliminar os elementos químicos suspeitos, inclusive o álcool que me incomodava, pesquisei muito até encontrar uma receita simples que leva apenas quatro ingredientes:

óleo de coco – uma colher de sopa;
bicarbonato de sódio – uma colher de sopa;
manteiga de karité – uma colher de sopa;
farinha de araruta – duas colheres de sopa.

desodorante-pre

Há, na verdade, um quinto ingrediente: gotas de óleo essencial com o perfume que preferir. Essa é uma das vantagens de produzir seu próprio desodorante. Dá para prepará-lo do jeito que preferir, até achar a essência que mais lhe agradar. No meu caso preferi deixá-lo no modo “sem perfume”. Outro benefício, para mim e para o meio ambiente, é deixar de descartar embalagens de plástico ou de metal. Como mostra a foto, esse pote com tampa já armazenou sal e temperos diversos e, a partir de agora, acondicionará meu desodorante natural. E mais um detalhe importante: caso tenha dificuldade em encontrar a farinha de araruta, você pode substitui-la por amido de milho. Ressalto que todos os ingredientes foram comprados a granel.

desodorante-pronto

Mas antes que eu me estenda mais falando sobre os benefícios do desodorante feito em casa, vamos ao preparo, que é super simples. Basta colocar todos os ingredientes em uma tigela de vidro e misturá-los em banho-maria até formar uma pasta espessa. Coloque essa pasta em um pote com tampa e o deixe na geladeira por mais ou menos 20 minutos.

Para aplicá-lo, lambuze a ponta dos dedos com o desodorante e passe nas axilas. Não exagere na quantidade! Antes de colocar a mão na massa e prepara-lo, vale a pena testar cada um dos ingredientes na pele, de preferência no braço. Apesar de ser natural, algumas pessoas podem ser alérgicas ao bicarbonato de sódio, por exemplo.

Voltando aos benefícios do desodorante natural feito em casa com apenas quatro ingredientes, embora eu seja péssimo em matemática, garanto que você vai economizar dinheiro. O ingrediente mais caro da lista é a manteiga de karité. Gastei R$ 10 para comprar 100 gramas, que ainda vão render muito. Um desodorante roll-on acondicionado em embalagem de plástico e repleto de parabenos, triclosan e alumínio também custa, em média, R$ 10.

Não se esqueça: consulte-se com seu dermatologista regularmente!!! Não sou dono da verdade. Sempre pesquise, questione e reflita!!!

 



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