Entrevistas

Publicado em 14/03/2016

‘Me autodestruo e a partir disso me remonto’, diz Liniker sobre produção Remonta

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Por Marcela Cortez

Fotos: Flávio Torres

“A gente fica mordido, não fica? Dente, lábio, teu jeito de olhar. Me lembro do beijo em teu pescoço, do meu toque grosso, com medo de te transpassar” – é letra de Zero, canção protagonizada pelo cantor Liniker Barros, que impulsionou o artista na internet, exibindo a marca de mais de um milhão de visualizações no Youtube, após quatro meses de postagem. Esta é uma das músicas que compõe “Remonta”, álbum que será lançado ainda em 2016.

Liniker nasceu em Araraquara, interior de São Paulo. De lá, ganhou o mundo aos 18 anos, quando saiu de casa para estudar. Durante um show na última sexta (11), em que esteve nos palcos do SESC em Sorocaba (SP) concedeu entrevista exclusiva à Revista Terraço para falar sobre seu trabalho – que está atrelado também a atuação, outra paixão do artista – seu sucesso na internet, fama, preconceito e moda. Acompanhe!

– Vinte anos e esse estouro. Como você se sente?

É muito doido como tudo, de repente, ficou muito rápido. Já trabalhava, mas não tinha visibilidade. Escrevia desde os 16, fazia cover na internet. Mas precisei focar, precisava vomitar esses sentimentos todos que tenho e me foquei nesse projeto. Foi quando tudo veio muito rápido, shows e público aumentando. Muitas pessoas cantando, sabendo de tudo, sabendo da gente, mostrando carinho, então isso é muito doido.

11032016_Liniker_0144-Quando você compõe, suas músicas trazem profundidade, são amores correspondidos ou não?

São cartas que escrevi e não tive coragem de entregar. Amores platônicos, amores que não foram correspondidos. Que às vezes a gente tenta e é só a gente tentando. Eu vivia isso, escrevia. Um ciclo em que me autodestruo e me remonto. Daí vem o título do álbum. Algumas dessas músicas são antigas, que escrevia aos 16, nesse ciclo da adolescência.

– Um ciclo de dúvidas, se descobrindo?

Uma fase de produção escrita, em que mudei de cidade, indo para Santo André estudar artes cênicas. Já participava de grupos de teatro, mas sempre com o sonho de ser músico. Era uma coisa que gritava em mim. Tanta coisa nisso: uma cidade nova, uma vida sem mãe, sem dinheiro, vivendo no ABC paulista. Foi uma época em que viajava para poder ensaiar com a banda. Mas pego tudo isso e penso que nada é à toa. Então, as coisas foram dando certo. Reflexo do trabalho e de pensamentos positivos que dariam certo. E deu.

– Contato com a internet logo cedo, como você vê sua geração conectada?

Gravava vídeos fazendo cover. Fiz três: Alicia Keys, Adele e Jason Mraz. Tinha vergonha de cantar! Já tinha um violão, mas precisava parar com isso, me mostrar. Então resolvi colocar a cara no sol! Mas ainda sentia que precisava de algo pessoal, uma música minha. Já tinha tanta coisa escrita que acabei aproveitando. Não tinha dimensão do boom da internet, até que aconteceu com Zero, cinco dias e um EP  feito por um artista do interior. Resultou em um milhão de visualizações. Quebrou com o conceito de que pessoas do interior não saem de casa, que não há movimento cultural. Foi de forma simples como tudo aconteceu, as gravações ao vivo na sala da casa de um amigo. A resposta veio num tempo curto.

– Agora, vida de gente grande?

As pessoas falam que agora estou famoso. A questão é que agora vivo do meu trabalho, do meu sonho. Levar o que acredito para tanta gente.

– Durante os shows, as produções contam com estética, maquiagem… Você gosta de Moda?

Muito! Falo que sou a rainha do brechó. Confesso que não vejo revista, mas gosto de ir ao brechó e fazer pesquisa, vejo o que tem. Antes, pegava roupas da minha avó, com bordados, estamparia etc. Meu melhor amigo faz design de moda, então trocamos muita coisa. Sempre gostei muito! Já no colegial, usava peças diferentes. É legal poder se vestir com o que se gosta.

– E quando passa o batom?

A coisa do usar batom e rímel faz com que me sinta muito seguro, me sinto eu de verdade.

11032016_Liniker_0036– Numa entrevista na Revista Trip, você fala de uma agressão que sofreu na rua por ser gay. É frequente esse tipo de coisa?

Muito! É preciso falar como pessoa, sofrendo um tipo de preconceito, independente da forma de vestimenta. Ainda mais na questão do ser ‘bicha e ser preta’. As pessoas têm uma objetificação muito grande, achando que os negros e negras são corpos esculturais, corpos quentes. Depois do meu processo de aceitação das roupas ditas femininas, de desconstruir essa coisa do gênero em mim, isto se potencializou muito mais. Uma vez estava na rua e passou uma pessoa de moto fazendo gestos obscenos, como se eu fosse um pedaço de carne e isto foi horrível. As pessoas estão se empoderando sim, se potencializando cada vez mais para tentar acabar com a homofobia e o preconceito! Esse é um movimento que cresce cada vez mais no país.

– As pessoas estão carentes de amor, nos dias de hoje?

O maior sonho de todo mundo é ser amado e acredito nisso. É um assunto defasado. E também uma questão de amor próprio. Na letra de Zero falo dessa relação, quando você vê que seu relacionamento não vai dar certo com determinada pessoa, é preciso pensar ‘ok, não deu certo’. É preciso pegar isto e levar esse amor para outro grau. As relações não precisam ser obsessivas e abusivas, parar de pensar que se você não tiver a pessoa você não é ninguém. É o contrário, é o que se sente!

– Para 2016…

Tem muito trabalho! Tem a aceitação de ser quem a gente é e não se caber dentro disso, mostrar isso para o mundo. Isso é ser humano, ser parceiro de si, parceiro do outro.

 



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