Maria Clara Barbosa

Publicado em 25/04/2016

A VIDA AMOROSA: UM PADRÃO FAMILIAR

Quando um paciente me procura para compreender seus problemas com relacionamentos amorosos, nenhum tema é tão recorrente como a “repetição de padrões amorosos familiares”. 

Bom, começo compartilhando com vocês queridos leitores a história de uma antiga paciente que me procurou há alguns anos atrás para compreender porque sua vida amorosa nunca foi plena ou satisfatória.

Hereditariedade amorosa

Tratava-se de uma jovem perto de seus 40 anos, bonita, jovial, porém, com as marcas muito particulares de uma alma infeliz no amor, marcas essas facilmente identificadas por palavras cortantes sobre os homens, casamento e um típico olhar desesperançoso e melancólico estampado em seu rosto. Ela viera me procurar porque após passar por quatro longos e difíceis relacionamentos amorosos, ela não aguentava mais – palavras dela – Encontrar sempre, os mesmos perfis de homens!

Foi assim, que mergulhamos juntas numa jornada por busca de respostas para aquela questão, muito embora eu já soubesse o que iria encontrar em sua história, mas não bastava apenas eu saber e lhe dar as respostas prontas, precisava fazer com que ela sozinha enxergasse as respostas. Recordo-me de lhe indagar que me falasse das mulheres de sua família, falasse-me ainda de suas amigas e das histórias de amor de cada uma delas. E claro, o que não foi nenhuma surpresa para mim, mas surpreendente para ela, o quanto as histórias mudavam de personagens e contextos, mas a essência, essa se manteve com todas! Tratava-se de mulheres que foram imensamente infelizes no amor, com o padrão muito claro de se envolver com homens fracos, indecisos, que mais pareciam procurar uma mãe em cada uma delas, do que uma mulher propriamente dita. Mas por quê?

Eu gosto muito de uma definição que utilizo como base para esse tipo de explicação: “Nós somos a somatória de todas as experiências de amor e dor das mulheres que nos antecederam e de todas que estão ainda hoje a nossa volta”! Mulheres que fazem parte de um círculo familiar onde as mulheres não foram felizes no amor, dificilmente conseguirão este feito em suas próprias vidas, devido ao padrão de crenças limitantes que ouvimos e introjetamos, muitas vezes, desde o ventre de nossas mães.

Isso sem falar, em nossas identificações transgeracionais, assunto de difícil compreensão teórica para alguns, por isso mesmo, não me estenderei nele, mas, em linhas gerais para que possam compreender, trata-se das identificações inconscientes que fazemos com a história de vida de nossos antepassados, no caso, de nossas avós, bisavós, tataravós e por ai vai. Porém, essa linhagem de dor e infelicidade busca e procura por um “corte”, é preciso que em uma dessas gerações o ciclo de dor seja interrompido e uma dessas mulheres venha a “quebrar esse padrão” e dar outro significado e destino a ele.

Muitas vezes, a história de dor amorosa, iniciou com uma tataravó que muito infeliz em seu casamento ou não correspondida por um grande amor, transfere para sua filha a sua realidade não elaborada de dor e assim geração a geração essa dor passa de mãe pra filha, até que uma delas tenha força e coragem para dizer NÃO a história antes dela, muitas vezes para ir contra tudo aquilo que representa uma verdade absoluta para sua mãe, suas tias, sua avó e todas as mulheres de sua família e a sua volta. Você consegue imaginar quanta coragem precisa ter para dizer para todas essas mulheres da sua vida, o quanto elas estavam erradas e que na verdade é possível encontrar um homem bom e que a faça plenamente feliz?

No caso de minha paciente, a história de dor familiar estava com sua tia avó que foi imensamente infeliz casada com um homem que não reconhecia seu papel de provedor do lar e ao invés de amparar a ela e aos filhos do casal, este homem era alcoólatra e a agredia e aos filhos continuamente quando algo não acontecia a seu contento e essa mulher era obrigada a trabalhar para fora para trazer o sustento para seu lar e ainda suportar a tudo isso, porque naquela época era impensável uma mulher que se divorciasse. Bom, qualquer semelhança com os tempos atuais, ainda, por mais difícil que pareça, não é mera coincidência. Ainda encontramos mulheres que se sujeitam a todo tipo de agressão física e psíquica em nome da manutenção da instituição familiar e por boa intenção, mas muito ou nulo autoamor, transferem sua história de dor para suas filhas e filhos inconscientemente.

Termino o caso dessa paciente, lhes contando que após sua alta terapêutica, passado exatos um ano e três meses, um dia ela me escreveu, agradecendo por todo o trabalho realizado que modificou sua vida e ela estava naquele momento as vésperas de seu tão sonhado casamento, com um homem que ela me definiu, como: um companheiro bom e dedicado! Nesse dia, compreendi que meu trabalho chegara ao fim com ela.

Mas então como modificar esses padrões que parecem tão difíceis de serem alterados?

A cura é somente e tão somente pelo amor! São muitas as técnicas ativas que utilizo com os pacientes, principalmente em meu trabalho de grupo com mulheres, para trabalhar esses padrões. Porém, em minha opinião, a técnica mais profunda e curativa de todas é a de olhar mentalmente para todas as mulheres da sua história e “pedir” que todas possam abençoar a sua decisão de ser feliz e encontrar um bom companheiro, pedir ainda que o seu inconsciente escolha extrair apenas as melhores partes de cada uma dessas mulheres e não mais sua dor, mas, acima de tudo, olhar para as histórias delas com profundo amor e compaixão, compreendendo, aceitando e escolhendo uma caminhada absolutamente nova para você e para as mulheres depois de você!

DSC07406  Maria Clara Barbosa é bacharel em Engenharia

 Elétrica pela Faculdade de Engenharia de
 Sorocaba. Mestra em Física Teórica pela
 Universidade Estadual Paulista (UNESP).
 Coordenadora de atendimentos sociais. Pós
 Graduada em Psicanálise, em Psicoterapia de  Casal
 e Família, em Saúde Mental e Intervenções, além
 de Especialista em Grupoterapia e  Arteterapia.
 Psicanalista Kleiniana com Formação Internacional
 em Florais da Califórnia,  Austrália e Bach, Master
Practitioner em Programação Neurolinguistica,
Hipnoterapeuta  Ericksoniana, entre outros.
Contato: (15) 3014-2277. Avenida Gal Carneiro, 803 – Sl

Facebook: Las Lobas – Sorocaba

Foto ilustrativa: Pixabay.



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